Por que não se fabricam mais Xuxa's como antigamente?  

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Hey! 

 

Como explicar, nos dias de hoje, que o principal ícone infantil do nosso país era uma ex-namorada do Pelé que tinha acabado de participar de um filme onde abusava sexualmente de um menininho?

Isso soa tão absurdo como se o idiota do Bolsonaro assumisse o comando do brilhante programa Amor e Sexo da Rede Globo ou saísse candidato do PSOL sem que isso se torne uma revolta SEM PRECEDENTES na internet. 

 

Como era possível se fabricar ícones tão onipresentes na nossa sociedade sem que tivéssemos a força de dizer não? 

Ríamos de personagens racistas e homofóbicos na TV, cantávamos refrãos machistas sem a menor auto crítica, e vimos a mulher ser extremamente sexualizada até em um programa infantil. 

 

Mas uma mentira contada milhares vezes acaba se tornando uma verdade... 

 

Não estou aqui julgando a Xuxa, pelo contrário. 

Temos que bater palmas para ela por tudo que construiu ao longo da sua carreira.

A minha questão é que, se fosse hoje, a Globo nunca conseguiria emplacar uma apresentadora infantil com um passado recente como o que a Xuxa tinha na época como atriz|modelo. Da mesma forma que demitiu um dos jornalistas mais respeitados da emissora por um comentário racista, a Rainha dos Baixinhos não duraria um mês no ar se a internet caísse em cima. E logicamente cairia.

 

Não é nenhum moralismo idiota esperar de uma apresentadora infantil um passado sem filmes com teor pornográfico e pedófilo no currículo. 

Uma coisa é eu ser um fã incondicional do Michael Jackson e do Woody Allen, a outra é eu deixar meus filhos dormirem na casa deles. rs

 

 
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O que mudou?

Se você for agora no EXTRA mais próximo da sua casa você vai entender um pouco como se comportava o mercado do entretenimento antes da virada do século.

Talvez você não perceba, mas a grande maioria dos produtos expostos naquelas prateleiras são "velhos conhecidos" seus. Assim, por familiaridade, escolhemos os produtos que de fato vamos levar para casa.

São pouquíssimas as novidades e raramente optamos por elas na hora de encher o carrinho.

Um Cotonete para dar aquele trato, uma Gillete para se barbear, um Danone para o café da manhã, uma Coca para refrescar...

A lista vai on and on...

 

Estar ali escancarado na cara do consumidor é MARKETING e a garantia de que milhares de pessoas irão comprá-lo.

Mas como fazer para estar em uma dessas prateleiras?

 

É preciso negociar horrores com essas grandes redes e normalmente a melhor estratégia é ter o maior números de produtos possíveis para oferecer. Quanto mais HITS indispensáveis existirem no menu da empresa, mais força de negociação elas terão com esses varejistas. 

 

Vejam quantas marcas existem embaixo do guarda-chuva de empresas como Nestlé, Coca-Cola, Pepsi, Proctor and Gamble...  

São milhares de produtos!

 

Alguns produtos eles mesmos quem fabricam, mas a maior parte vem de aquisições de outras companhias.

Logicamente eles usam da popularidade de seus produtos campeões de venda (HITS) para garantir a colocação de produtos menos conhecidos. 

 

As grandes redes, por sua vez, jogam o mesmo jogo... 

Compram outras empresas do mesmo setor para terem mais lojas e mais espaço de prateleira para jogar duro com os seus fornecedores.

Elas podem usar essa força para, por exemplo, limitar o número de produtos novos ou compra-los bem mais barato.

Conseguem identificar alguma semelhança com a indústria da música? 

 

Lembre-se:

Em qualquer situação onde temos espaço limitado nas prateleiras a lógica do jogo é assim. 

Estou falando sobre prateleiras no sentido literal nesse caso, mas temos outras prateleiras no sentido figurado que também suas limitações de "espaço" e funcionam basicamente da mesma maneira. 

 

  • A trilha de uma novela
  • A programação de uma grande rádio
  • A grade de clipes dos canais a cabo
  • O caderno de cultura de um Jornal
  • A capa de uma revista
  • A trilha de filme 
  • Lembram dos Clips da MTV? 

 

Por exemplo: 

Empresas como NET e SKY tem um limite de canais para oferecer, assim como os varejistas com suas "prateleiras".  Por sua vez, empresas de mídia como Fox e Disney montam seus lineups pra negociar com os canais a cabo e satélite. É sempre a mesma dinâmica! 

Networks como ABC-CBS e ESPN começam a comprar novos canais para aumentar seus menus, para ter maior capacidade de negociação com os donos das "prateleiras". Mais uma vez os HITS (Canais bombados) garantem uma boa negociação para os menos expressivos. O resultado disso tudo são poucos blocos super consolidados decidindo por décadas o que consumimos. 

 

No nosso mercado as coisas aconteciam mais ou menos da mesma maneira.

Tínhamos as grandes gravadoras, as distribuidoras, os grandes varejistas e os veículos de comunicação. 

Gravadoras precisavam colocar seus produtos com o máximo de exposição de mídia possível durante a fase de lançamento para que seus discos fossem comprados e estocados em larga escala. Nos áureos tempos as grandes gravadoras gastavam verdadeiras fortunas para fazer essa roda girar. 

Grandes gravadoras com seus castings gigantes espalhados em selos e sub-selos negociando com grandes conglomerados de comunicação e super empresas do varejo. 

Sacaram a semelhança? 

 

Era muito fácil criar artistas do zero. Eles tacavam um monte de merda na parede (no caso, na gente), erravam em 90% das vezes mas os tais 10% davam MUITO DINHEIRO.

Da turma do Balão Mágico, passando pela chegada do Rock Nacional, até a trágica época em que o Brasil foi dominado pelo Pagode Romântico tínhamos muito poucas opções. Você até podia achar o Só Pra Contrariar horrível,  mas era impossível não saber cantar "Que Se Chama Amor". 

 

O fato é que não tínhamos o menor poder de escolha. Tudo que achávamos que tínhamos descoberto, na verdade, nos tinha sido imposto por meia dúzia de emissoras de TV e de rádio. Eles socavam na gente qualquer bosta e cabia à nós apenas decidir se gostávamos ou não. Mas de uma forma ou de outra sentávamos o cu no sofá e assistíamos TV. 

 

Era uma tortura diária...

 

Eu me lembro bem de ter que assistir o Chacrinha inteirinho para poder ver a Legião Urbana cantar a tal nova música que eu tinha escutado no rádio. Eram sempre os mesmos artistas que se revezavam entre um lançamento e outro, e se você quisesse ver o Titãs tinha que escutar o Luis Caldas, Gretchen, o Biafra, o José Augusto...

Até a Angélica com seu sucesso "Vou de Taxi" entre as 10 mais tocadas no Brasil em 1988. 

O resultado é que sua mãe sabia cantar "Faroeste Caboclo" inteirinha e você decorava a letra de "Fogo e Paixão" de Wando por osmose. 

 
 
 

 

A força dos veículos de massa no auge da sua plenitude. 

Meia dúzia de canais repetindo informações e nos manipulando até perdemos a capacidade de discernimento. 

Era uma fábrica de Tiriricas! 

Jesus! 

 

Mas aí veio a internet...  

A internet nos deu muitas coisas, mas uma delas mudou a história do mercado da música para sempre: Espaço infinito de prateleiras. 

A luta agora é por atenção!! 

 

Olhem a loucura:

  • Só em 2017 mais de 500 novas séries foram lançadas. 
  • No Youtube, no mesmo ano, 400 horas de vídeo tiveram o upload feito por minuto. 
  • No Spotify os números aproximados são também espantosos: 30 milhões de tracks.  

 

Disrupção Digital profunda. 

"O que consumimos", "como consumimos" e "onde consumimos" mudou completamente nos últimos 18 anos! E pior: não consumimos as mesmas coisas ao mesmo tempo. 

 

Você pode até argumentar que ainda existem os temerosos Luan Santana's of the world que se tornaram as NOVAS XUXA's, mas a situação é muito diferente.

 

Por mais que centenas de milhares de pessoas amem o cara, você pode ter certeza que uma enorme parcela da população não sabe cantar uma única música dele. E não duvide que existem muitas tribos que não façam a mínima noção de quem ele seja. Se você jogar uma menina de uns 19 anos, assídua frequentadora de um festival lifestyle como o Lollapalooza, na frente da TV para assistir o programa "Só Toca Top da Globo" existem grandes chances dela não saber quem são aqueles seres estranhos que bombam por lá.

 

Mesmo a poderosa TV Globo, com todo o seu padrão de qualidade e grandeza, tem tido muitas dificuldades em se manter como a grande formadora de opinião e balizadora de cultura no nosso país. Se até poucos anos atrás tocar na novela era garantia de sucesso imediato, hoje na maioria das vezes não faz o telefone tocar uma única vez. E olha que hoje as trilhas estão cada vez mais caprichadas, existe espaço para a música independente e até artistas super conceituais como Radiohead e Daughter vira e mexe aparecem na telinha.

A questão é que ninguém está de fato prestando atenção...

Antes você ouvia a uma música na novela e impreterivelmente essa mesma canção estaria no rádio, nos programas de auditório da TV, nos filmes... Era um loop de promoção tão insano que fazia metaleiro saber cantar uma música do Fabio Junior. 

 

Hoje vivemos em silos, cada um no seu tempo, na sua praia e com suas crenças. Vemos o que queremos ver em canais do Youtube, em grupos do Facebook, no Insta, No Twitter, no Snap, no Whatsapp, por e-mail, Pinterest com o help dos algoritmos dessas plataformas que retro alimentam essa nossa individualidade. Eventualmente saímos dessas bolhas para assistir à TV, ir ao cinema, ao Teatro... Mas sempre checando o nosso smartphone pra ver o que está rolando. 

 

Com a chegada das plataformas de streaming e o protagonismo do Spotify já vemos uma nova guerra acontecer por mais uma "prateleira": As Playlists 

Mas isso é tema para um  outro texto bem longo como esse. rs 

 

Enfim... 

Nesse ambiente hostil e fragmentado, as gravadoras e grandes emissoras de TV por aqui ainda olham o mundo pelo retrovisor com um certo apego e fetiche pelo passado.  Elas adoravam quando tinham o poder de transformar a "peguete do Rei do Futebol" na "Rainha dos Baixinhos" e vender milhares de cópias.  

 

Por hoje é isso! 

Espero que meu texto tenha servido para alguma coisa.  

Um beijo enorme 

Clemente Magalhães 

 
 
 
 
 
 
 
 

 

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