O que a indústria pornô nos ensina sobre marketing?

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Ninguém gosta de pagar para ver pornografia e muito menos por música né?

Mas o povo só pensa NAQUILO  

 

Um  artigo recente da Forbes, concluiu que os americanos nunca escutaram tanta música como em tempos atuais. Em pesquisa realizada pela  Nielsen Music, os números são claros: Os americanos escutam 32 horas de música por semana.

Há cada segundo a palavra sexo é digitada 30.000 vezes em sites de buscas apenas nos Estados Unidos. 
— Nick Bilton, I Live In The Future & Here's How It Works

O que podemos aprender com uma indústria que desde os primórdios não só conseguiu se ajustar as mudanças tecnológicas, mas também foi pioneira em como usar essas inovações pra viabilizar novos modelos de negócio.

Não seria nenhum absurdo dizer que o mercado adulto sacramentou o VHS no mundo e jogou o Batamax, de muito melhor qualidade,  pra obscuridade nos anos 70. A Sony, por restringir o tempo de gravação em uma hora e não permitir que conteúdos adultos fossem lançados em seu formato fizeram o primo pobre em qualidade decolar.

 

Essa mesma indústria em 1982 arrumou uma forma genial de monetizar em cima das chamadas pague-por-minuto antes de todo mundo. Os famosos números que começavam com 900 e tinham do outro lado mulheres de vozes lindas "dispostas" a falar sobre sexo 24 horas por dia levaram adultos a loucura e pais furiosos a "falência". Nem posso falar isso alto perto do Clementão, meu querido pai,  pois esse assunto me gerou sérios problemas quando meus hormônios voavam longe. Se em qualquer lugar do mundo a brincadeira custava caro, imagina aqui em época de telefonia estatal... Uma linha telefônica custava o preço de um carro e brincar de tele-sexo com ligação internacional era papo de bastante dinheiro. A turma do 35+ sabe bem do que estou falando... 

 

E os anos 90 chegaram.  Como o mundo só pensa em sexo a indústria que faz o sangue ferver deu novamente uma aula no mundo digital. Enquanto os gigantes da tecnologia explodiam de perder dinheiro a indústria pornô só colocava pra dentro e saia do tubo sempre com o bolso cheio de dólares. Se no mundo real as(os) strippers pedem mais 20$ a cada vez que uma música acaba e bem mais caro para chegar cada vez mais pertinho a indústria adulta levou o mesmo modelo de experiência para o mundo digital.

 

Quer ver a foto sem a tarja preto meu amor?

Quer ver a danada de pertinho?

Quer ver meu rosto antes de me contratar? 

Quer ver o vídeo sem cortes e por outros ângulos? 

Show me the money! 

 

Monetizando brilhantemente em cima de imagens e vídeos pode-se dizer que foram os primeiros a fazer o modelo de assinatura com cartão de crédito vingar no planeta digital.

 

Nas minhas viagens pelo mundo atrás de informação me deparei com a página no Instagram Suicide Girls atrelada as tags #sxsw, #sxsw2018 e #austin. Mulheres lindas para caralho, em um estilo rock total e ainda por cima semi nuas. Segui a página imediatamente e em questão de minutos meu Instagram virou uma loucura.

 
 

Era tanta mulher sinistra no meu feed que fui dar um confere em uma postagem específica. Era um daqueles vídeos que deixam bem claro que os nosso códigos morais são bem diferentes do desejo humano. Saca? 

 
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Fui olhar na descrição e para assistir o resto do conteúdo fui obrigado a fazer um pagamento. Aquilo me deixou curioso mas muito mais pelo ponto de vista de marketing.

 

Resolvi ir até o fim para entender direito o caminho completo que eles criaram para me entreter e quais possibilidades de monetização eles me apresentariam na medida em que clicasse no maldito link. Assim cruzei os dedos e fui!

 

Quando cheguei no site oficial tomei um susto.  A plataforma é brilhante!

A turma por trás do Suicide Girls simplesmente criou uma verdadeira comunidade ao entorno de um lifestyle e uma máquina de fazer dinheiro. Qualquer um pode circular pela plataforma no modo free mas para ter acesso a cereja do bolo é necessário pagar 12$ por mês.

 

Tudo ali funciona como uma verdadeira rede social e logicamente existem as modelos mais cobiçadas, com mais seguidores e mais engajamento. Usuários, além de se deliciar com aqueles conteúdos podem também se comunicar entre si, criar grupos, organizar festas e tocar o terror. 

 

No dia seguinte me deparei com esse preciosidade no Stories do meu Instagram... Mais uma vez se senti tentado a chegar aonde o tal link me levaria... 

 
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E foi aqui que cheguei: 

Patreon

Se em um primeiro momento me jogaram para uma plataforma aonde eu poderia gastar até no máximo 12$ por mês, dessa vez a arapuca podia estourar meu orçamento realmente. Pouco conhecida aqui no Brasil, o  Patreon  é uma plataforma maravilhosa para oferecer experiências e produtos para os fãs mais fiéis diariamente ou semanalmente. E olha o menu de opções que eu me deparei... 

20$ - Ver as fotos sem as tarjas 

25$ - Ver as mesmas fotos sem as tarjas e receber um bônus de ângulos bem mais abusados feitos por outro fotógrafo no set.

50$ - Receber os produtos acima, ter acesso a sua página inteira da plataforma e receber todo mês um ensaio novo. 

Existiam outras possibilidades mas prefiro parar por aqui... ahhahahaha 

 
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O fato é que na hora em que você faz o seu cadastro financeiro, fica muito fácil você ser convencido a gastar mais e mais e mais... Uma aula de como catar um cara lá no Insta e joga-lo em um funil de consumo com diversas opções de monetização sem gastar um puto. 

 

Mega empolgado com o assunto e dopado de café resolvi reler o clássico I Live In The Future & Here How It Works e me deparei com dezenas de páginas sobre o assunto.

 
 
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Enquanto a indústria da música insiste em olhar para os fãs/consumidores como uma única camada de possíveis compradores,  a indústria pornô aposta em conteúdos de nicho e com um range de preço de acordo com a experiência desejada pelo cliente. Em um mundo onde todos podem se auto filmar e postar em sites especializados as grandes empresas desse mercado apostam alto em produções de altíssima qualidade mas com um cheirinho de amadorismo no ar. Até mesmo aquelas super loiras de peitos enormes parecem não fazer mais sucesso no mundo digital como outrora. Consumidores, cada vez com gostos mais sutis, querem achar "produtos" que atendam suas necessidades específicas e querem consumi-los da forma mais conveniente. Se as companhias de sexo não atenderem a essa demanda com certeza os amadores o farão. Consumidores tendem a pagar por super exclusividade, por novos formatos e mega conveniência. Segundo Benjamin Edelman, professor do Business em Harvard, os americanos tendem a pagar entre 5$ e 30$ por específicos conteúdos mesmo existindo um oceano de produtos on-line de graça. Produtores dessa mesma indústria afirmam que hoje não é mais possível fabricar um determinado conteúdo e simplesmente vende-lo em um ou dois formatos como se fez por anos em VHS e DVD. Alguns irão pagar para ver 30 segundos de um determinado vídeo mas outros podem assinar por um ano 35$ e degustar um cardápio de vídeos pra lá de especial.

 

 

A fórmula parece ser simples: 

 

 

Atenda diferentes nichos de um mercado com inúmeras opções de conteúdo, em diversos formatos e com um range de preço amplo.

 

Ou seja:

 

Dê ao seu público o que ele quer comprar, da maneira que ele quer comprar e pelo preço que ele queira pagar. 

 

 

A parada me tirou tão do sério que mandei mensagem para alguns amigos do mercado mas para variar o povo desconversa, acha que você está demente e desliga o telefone. Eu estava diante de um modelo de negócio brilhante e meus amigos insiders da indústria completamente cegos dentro do castelo das companhias de discos. Eu ali diante de um modelo perfeito de plataforma para monetização de experiências e os caras completamente dentro da maldita "lógica" de vender pedaços de plástico, pagar para colocar músicas em rádio, reinventar o jabá nas plataformas digitais e coisas do tipo. 

 

Antes que me joguem bombas me chamando de porco capitalista provoco à vocês artistas e empresários a seguinte pergunta: 

 

Quantos conteúdos e experiências incríveis vocês poderiam oferecer ao seu público?

De que maneira esse material poderia simplesmente transformar a vida das pessoas? 

Como poderíamos usar parte do que é arrecadado com essas ações pra devolver para a sociedade e fazer daqui um mundo melhor? 

 

Imaginem 1.000 fãs pagando 100 reais por ano por esses "produtos"...

Imaginem 5.000 fãs pagando 100 reais por anos... 

E 100.000... 

 

Por hoje é isso. 

Um beijo enorme e uma ótima noite de sexo para todos. 

Beijos 

Clemente Magalhães